Enquanto a maioria das mulheres passa horas pensando sobre a roupa que usará na ocasião “x”, Estela despende o mesmo tempo, talvez um pouco menos, analisando qual bolsa escolherá para comportar o livro que está lendo. Da bolsa de praia à bolsa de passeio, identifica-se qual é a sua por possuírem sempre três componentes: lápis, caderno e UM LIVRO.
A relação de Estela com os livros tem longa data.... Desenvolveu o gosto pela leitura ainda muito nova. Da sua mãe ganhou uma coleção de contos infantis. Mas, foi na adolescência que o mundo da literatura passou a confundir-se com o seu universo, e ela poderia trancafiar-se dias no seu quarto “devorando” o livro da vez.
Suas professoras de Língua Portuguesa, ao se depararem com este seu “hobby”, sugeriam livros que nem faziam parte do currículo escolar. Deveria ser tão raro encontrar alunos com tamanho prazer por ler que uma de suas professoras não apenas indicava títulos, mas os dava de presente... Nessa época, ela tinha então quatorze anos, dois livros a marcaram intensamente: Depois daquela viagem e Eu, Christiane F., drogada e prostituída. A menina se interessava por histórias reais temperadas com muito drama, dor e verdade.
Aos poucos Estela ganhara certa independência e sozinha passou a descobrir novos autores, novos livros, novos temas. Sua primeira aventura literária foi desbravar a biblioteca do seu pai. Ele era um homem que gostava dos grandes clássicos. Foi ali que leu todos os livros de Machado de Assis. Dos clássicos seus olhos também passaram por folhas um tanto ousadas e quando ela se lembra disso um sorriso “malicioso” nasce no canto da boca... Com quinze anos Estela leu Muros altos da Cassandra Rios. O livro narra a vida em um internato feminino e paixões nada convencionais.
Não, não se engane. Estela não era tão somente uma adolescente dada a romances. Quando completou dezesseis anos, um amigo do seu pai – dizem as “más línguas” que ele era envolvido com a guerrilha na época da Ditadura – presenteou-a com a recém-lançada biografia do Ernesto Che Guevara. Deste livro para o Manifesto do Partido Comunista foi um pulo.
Um adendo: Estela era do tipo de menina que as linhas literárias a marcavam de tal maneira que constituíam sua leitura de mundo. As linhas do texto e as linhas do seu cotidiano se misturavam e a fronteira entre o que ela lia e a realidade se tornava tênue, borrada.
O quadro negro da sala de aula que o diga. Frases como “Viva a Revolução!”, “Morte ao capitalismo”, “Anarquismo já” eram rabiscadas por ela entre um intervalo e outro. Paulatinamente Estela se transformou naquilo que poderiam denominar “romântica revolucionária”.
Sim, porque o “amor adolescente” sempre estava no ar. Ela amava livros baseados em histórias reais sobre os anos 60 e 70, com suas questões políticas, mas também porque traziam consigo as paixões, os namoros, os casos. Em meio à “revolução” sempre havia um tempo para se apaixonar e isso era o que mais fascinava Estela.
Com o passar do tempo e da centena de páginas lidas, Estela e sua biblioteca eram parte de um mesmo ser. Seu universo era o da “Ciência Humanas” e ali estudou, se formou, se profissionalizou... E descobriu mais e mais autores – filósofos, dramaturgos, poetas, sociólogos, historiadores, feministas, antropólogos.
Antes que algum "desavisado" de plantão se manifeste e diga que Estela desenvolveu algum tipo de complexo de qualquer coisa porque ainda na primeira infância blá blá blá... É importante dizer: Estela gostava (e ainda gosta) de ler como certas mulheres preferem tricô, crochê, academia, maquiagem, bolsas e roupas. Descobrir um livro, ler uma frase de impacto mexe com seu cérebro, com seus pensamentos e emoções como um chocolate deve “tocar” uma chocólatra.
Enquanto alguns olham um livro e vêem uma página branca com letras escritas na cor negra, Estela vê uma viagem a sua espera.
O livro se tornou seu companheiro. Parafraseando Clarice Lispector, Estela “não era mais uma menina com seu livro, mas uma mulher e seu amante”. Tratando-se de um caso de amor, Estela é fiel. Ela não lê mais de dois livros por vez. Há o livro de leitura diária – geralmente envolve estudo, caderno de anotações e uma escrivaninha. E há aquele que a acompanha de viagens à padaria mais próxima. E este é o tipo de livro que precisa combinar com um café requintado como também como água salgada e areia.
O livro de estudo não serve para lugares descontraídos, porque precisa de sua total atenção. Para cada ambiente um “amante”. Estela também não abandona seu companheiro mesmo quando este se torna enfadonho. Ela é fiel até a última linha.
Pode-se dizer até que Estela compõe o “look” de acordo com seu livro. Tudo começa com a bolsa ideal para carregar consigo seu “amante”, as demais peças, inclusive a roupa, são consequências desta escolha. Ela já deixou a carteira em casa e dela separou o necessário quando se deu conta que ambos não cabiam na bolsa. Jamais! Privar-se de ler não faz parte do seu roteiro – fiquem as carteiras, os batons, a nécessaire, contudo, o livro não. Como separar-se daquele que é seu amante?
Contudo, este universo cuidadosamente organizado e selecionado foi abalado quando a morte de uma pessoa muitíssimo querida encontrou seus caminhos e Estela se viu, pela primeira vez, perdida. Não havia linha ou entrelinha que a consolasse. E em meio à dor intensa e as incertezas que abalaram seu coração foi que ela conheceu um Livro que a tocou profundamente. Ela não o entendeu em um primeiro olhar, mas sentiu que o que dali fluía teria a capacidade de sarar sua dor.
Numa relação de amor e ódio, porque muitas vezes ele lhe é incompreensível, o Livro durante anos e anos rejeitado, transformou-se em sua pedra fundamental. É o Verbo que a desvela, que a restaura, que a instiga. Ele é sempre um novo livro e talvez por isso seja eternamente seu “livro de cabeceira”. Não há hora ou ambiente perfeito para ele, o Livro é uma constante. Ele simplesmente “É”.
As suas inúmeras versões são lidas e rabiscadas seguindo a maré do seu coração. Ele é todos em um. Ela o estuda, mas, também o lê para encontrar-se em meio à tempestade.
Então, como uma mulher que se encontra com seu único e verdadeiro amor, Estela desmontou sua biblioteca, encaixotou as verdades neles contidas e se dedicou aquele Livro como quem se entrega ao Primeiro Amor.
O meu amado fala e me diz: Levanta-te, meu amor, formosa minha, e vem.
Porque eis que passou o inverno; a chuva cessou, e se foi;
Aparecem as flores na terra, o tempo de cantar chega, e a voz da rola ouve-se em nossa terra.
Cânticos 2:10-12
A relação de Estela com os livros tem longa data.... Desenvolveu o gosto pela leitura ainda muito nova. Da sua mãe ganhou uma coleção de contos infantis. Mas, foi na adolescência que o mundo da literatura passou a confundir-se com o seu universo, e ela poderia trancafiar-se dias no seu quarto “devorando” o livro da vez.
Suas professoras de Língua Portuguesa, ao se depararem com este seu “hobby”, sugeriam livros que nem faziam parte do currículo escolar. Deveria ser tão raro encontrar alunos com tamanho prazer por ler que uma de suas professoras não apenas indicava títulos, mas os dava de presente... Nessa época, ela tinha então quatorze anos, dois livros a marcaram intensamente: Depois daquela viagem e Eu, Christiane F., drogada e prostituída. A menina se interessava por histórias reais temperadas com muito drama, dor e verdade.
Aos poucos Estela ganhara certa independência e sozinha passou a descobrir novos autores, novos livros, novos temas. Sua primeira aventura literária foi desbravar a biblioteca do seu pai. Ele era um homem que gostava dos grandes clássicos. Foi ali que leu todos os livros de Machado de Assis. Dos clássicos seus olhos também passaram por folhas um tanto ousadas e quando ela se lembra disso um sorriso “malicioso” nasce no canto da boca... Com quinze anos Estela leu Muros altos da Cassandra Rios. O livro narra a vida em um internato feminino e paixões nada convencionais.
Não, não se engane. Estela não era tão somente uma adolescente dada a romances. Quando completou dezesseis anos, um amigo do seu pai – dizem as “más línguas” que ele era envolvido com a guerrilha na época da Ditadura – presenteou-a com a recém-lançada biografia do Ernesto Che Guevara. Deste livro para o Manifesto do Partido Comunista foi um pulo.
Um adendo: Estela era do tipo de menina que as linhas literárias a marcavam de tal maneira que constituíam sua leitura de mundo. As linhas do texto e as linhas do seu cotidiano se misturavam e a fronteira entre o que ela lia e a realidade se tornava tênue, borrada.
O quadro negro da sala de aula que o diga. Frases como “Viva a Revolução!”, “Morte ao capitalismo”, “Anarquismo já” eram rabiscadas por ela entre um intervalo e outro. Paulatinamente Estela se transformou naquilo que poderiam denominar “romântica revolucionária”.
Sim, porque o “amor adolescente” sempre estava no ar. Ela amava livros baseados em histórias reais sobre os anos 60 e 70, com suas questões políticas, mas também porque traziam consigo as paixões, os namoros, os casos. Em meio à “revolução” sempre havia um tempo para se apaixonar e isso era o que mais fascinava Estela.
Com o passar do tempo e da centena de páginas lidas, Estela e sua biblioteca eram parte de um mesmo ser. Seu universo era o da “Ciência Humanas” e ali estudou, se formou, se profissionalizou... E descobriu mais e mais autores – filósofos, dramaturgos, poetas, sociólogos, historiadores, feministas, antropólogos.
Antes que algum "desavisado" de plantão se manifeste e diga que Estela desenvolveu algum tipo de complexo de qualquer coisa porque ainda na primeira infância blá blá blá... É importante dizer: Estela gostava (e ainda gosta) de ler como certas mulheres preferem tricô, crochê, academia, maquiagem, bolsas e roupas. Descobrir um livro, ler uma frase de impacto mexe com seu cérebro, com seus pensamentos e emoções como um chocolate deve “tocar” uma chocólatra.
Enquanto alguns olham um livro e vêem uma página branca com letras escritas na cor negra, Estela vê uma viagem a sua espera.
O livro se tornou seu companheiro. Parafraseando Clarice Lispector, Estela “não era mais uma menina com seu livro, mas uma mulher e seu amante”. Tratando-se de um caso de amor, Estela é fiel. Ela não lê mais de dois livros por vez. Há o livro de leitura diária – geralmente envolve estudo, caderno de anotações e uma escrivaninha. E há aquele que a acompanha de viagens à padaria mais próxima. E este é o tipo de livro que precisa combinar com um café requintado como também como água salgada e areia.
O livro de estudo não serve para lugares descontraídos, porque precisa de sua total atenção. Para cada ambiente um “amante”. Estela também não abandona seu companheiro mesmo quando este se torna enfadonho. Ela é fiel até a última linha.
Pode-se dizer até que Estela compõe o “look” de acordo com seu livro. Tudo começa com a bolsa ideal para carregar consigo seu “amante”, as demais peças, inclusive a roupa, são consequências desta escolha. Ela já deixou a carteira em casa e dela separou o necessário quando se deu conta que ambos não cabiam na bolsa. Jamais! Privar-se de ler não faz parte do seu roteiro – fiquem as carteiras, os batons, a nécessaire, contudo, o livro não. Como separar-se daquele que é seu amante?
Contudo, este universo cuidadosamente organizado e selecionado foi abalado quando a morte de uma pessoa muitíssimo querida encontrou seus caminhos e Estela se viu, pela primeira vez, perdida. Não havia linha ou entrelinha que a consolasse. E em meio à dor intensa e as incertezas que abalaram seu coração foi que ela conheceu um Livro que a tocou profundamente. Ela não o entendeu em um primeiro olhar, mas sentiu que o que dali fluía teria a capacidade de sarar sua dor.
Numa relação de amor e ódio, porque muitas vezes ele lhe é incompreensível, o Livro durante anos e anos rejeitado, transformou-se em sua pedra fundamental. É o Verbo que a desvela, que a restaura, que a instiga. Ele é sempre um novo livro e talvez por isso seja eternamente seu “livro de cabeceira”. Não há hora ou ambiente perfeito para ele, o Livro é uma constante. Ele simplesmente “É”.
As suas inúmeras versões são lidas e rabiscadas seguindo a maré do seu coração. Ele é todos em um. Ela o estuda, mas, também o lê para encontrar-se em meio à tempestade.
Então, como uma mulher que se encontra com seu único e verdadeiro amor, Estela desmontou sua biblioteca, encaixotou as verdades neles contidas e se dedicou aquele Livro como quem se entrega ao Primeiro Amor.
O meu amado fala e me diz: Levanta-te, meu amor, formosa minha, e vem.
Porque eis que passou o inverno; a chuva cessou, e se foi;
Aparecem as flores na terra, o tempo de cantar chega, e a voz da rola ouve-se em nossa terra.
Cânticos 2:10-12
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